terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pérolas 026

 

Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu
E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
O sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu
Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.
Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu o caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou
Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei, p’ra lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
P’ra voltar a viver
Já nem sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber…
Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada,
O meu barco vazio na madrugada
Vou-te deixar-te no frio da tua fala
Na vertigem da voz quando enfim se cala.

In “A Pele Que Há Em Mim (Quando O Dia Entardeceu)” – Márcia & JP Simões




domingo, 13 de janeiro de 2013

Luffy


JP ®
…5ª feira…

…início da noite… a campainha do meu apartamento soa…
- aqui tens o bichano… - saúdam-me quanto abro a porta…
…dentro da caixa de transporte verde e cinza, dois olhos cor de avelã olharam-me com curiosidade…
- esta é a caixinha das necessidades dele e neste saco tens o granulado higiénico e a ração dele…
- só come ração…?
- só…
…pobre desgraçado, penso meio a sorrir…
…a minha amiga espalha um pouco do granulado na caixa, que coloco debaixo da bancada junto da maquina de lavar roupa, enche  uma tigela metálica com uns grãos de ração castanha e uma outra de plástico vermelho com água…
- vamos deixá-las aqui – debruço-me junto da bancada da cozinha – eles não gostam da comida perto do local onde fazem “outras coisas”…
…ela abre a porta da casinhota de transporte e chama-o..
- Luffy….anda, Luffy, anda…
…um gatinho Bosque da Noruega, de pelagem dourada e farta, saltita para fora da caixa, bastante seguro para os seus três meses, olhando tudo em redor com ar inspectivo, de focinho e cauda no ar…
…é afagado uma ultima vez pela dona, que lhe pespega dois beijos no nariz…
- adeus, pequenino… agora só te vejo pró ano…
- fica descansada… eu tomo conta dele direitinho…
…ela acena concordante… aliás, tinha-me pedido se podia  tomar conta do gato enquanto ia passar os últimos dias de 2012 e a passagem de ano com os pais, bem longe de Lisboa, porque sabia que eu tomaria bem conta do seu “bébé”…
…eu, que a réveillons já não ligo e como quase já nem me lembro do último que passei fora de casa, disse evidentemente que sim…
- trouxe também a escova dele que me pediste… tou aqui em frente na casa da Ana, com a Júlia… vamos jantar lá..
-já jantei… - antecipo-me ao mais que certo convite.
-de certeza…?
- sim…dá cumprimentos meus às moças…
- tá bem… adeus, Luffy…
…e pronto… fico eu e o gatito (Luffy…que raio de nome, mas pronto…) que, entretanto, ainda na cozinha, já está a tratar de si, comendo um bocado de ração…
…fechando a porta, vou para a sala e na varanda preparo o que já tinha planeado para ele ter ali acesso, com segurança… uma esteira 4 por 4 de palhinha forte, debruada com tecido castanho, que cobre toda a área e que tapa por completo o espaço da parte debaixo do gradeamento, não vá o bicho pensar que é paraquedista… coloco igualmente uma pequena caixa de madeira para transportar garrafas, que impede que ele se aventure na varanda do vizinho do lado…
…regresso à cozinha… não o vejo, mas ouço o esgravatar das suas unhas no granulado higiénico… aproximo-me e ele olha para cima, com um olhar “o que é foi ? nunca viste ?” enquanto continua a dedicar-se a tapar os seus dejectos…
…depois salta para fora, sacode as patitas e sai devagar rente à parede olhando meio desconfiado…
…trato de recolher os “presentes” que ele deixou, com uma pá (que me deixaram) própria para esse efeito… este granulado higiénico, parecido com uma areia fina e branca, parece de facto muito melhor que a areia normal ou a serradura que também se costuma usar… e depois de recolher, numa folha de jornal, as fezes do bicharoco, que parecem azeitonas pretas, e a urina que, depois de secar, fica em bolas amarelas no granulado, não fica nenhum odor no ar… espectacular…     
…e agora...? onde estará ele…? …a ideia já era deixa-lo explorar a casa, o seu novo espaço por uns dias, mas parece que já começou a fazer isso mesmo… vou até à sala e até à varanda… nada… de caminho para o corredor, olho para o wc da área de serviço, nada também… o escritório está fechado, só pode ter ido para o meu quarto… assim que entro, tenho o gajo, sentado a olhar para cima, olhos a piscar… antes de sair disparado para a sala…
…no quarto de banho da suite deparo com a primeira tropelia do bichano… o rolo de papel higiénico (que tinha colocado no dia anterior) está no seu lugar habitual, mas está vazio… o resto está profusamente espalhado pelo chão… está visto que tenho que tirar os rolos dos suportes e escondê-los fora do seu alcance…
…na varanda da sala, vai cheirando cautelosamente o chão, olhando em volta e vai aproximando-se devagar do gradeamento… as luzes dos prédios fronteiros atraem-lhe a atenção, bem como o movimento dos automóveis que passam na rua, seis andares em baixo…
…deambula uns minutos e ganhando confiança e impelido pela curiosidade, embica para a divisória que separa a varanda vizinha, enfia rapidamente a cabeça por baixo dela, obrigando-me a mergulhar a tempo de mal lhe conseguir agarrar as patas traseiras antes que se escapulisse para o outro lado…
- tu és lixado, pá… - segurando-o apoiado numa mão em frente do meu rosto e ele a olhar para mim como se nada fosse…
…com a outra mão, ajeito melhor a caixa que serve de barreira ao outro lado da divisória, de forma a não ter idêntica surpresa… assim que o coloco no solo, faz nova teimosa tentativa… desta vez sem qualquer sucesso o que me deixa satisfeito, ao contrario dele decerto…
…acendo um cigarro encostado na obreira duma das portas da varanda e agarro no telemóvel…
…três toques de chamada…
- ouve lá, posso fumar ao pé dele…?
…risos do outro lado…
- claro… porquê…?
- ora, ele podia não gostar… chega aí à janela da tua amiga e olha para a minha varanda da sala… tem a luz acesa…
-sim… tou ta ver…
- olha para baixo, na direcção do gradeamento do varandim…
- que tem…?
- olha lá outra vez… tás a vê-lo…?
…três segundos, até o gato rodar um pouco sobre si, rebolando na esteira a brincar com a cauda…
-…aaahhhh… Luffy… já tá na varanda…?
- pois… e parece que gosta… e fica descansada que está tudo seguro…
- tá bem… não queres vir aqui tomar um café…?
- fica para outra vez… fico aqui com o bichano… as meninas portem-se bem… jokas…e boa viagem…
- obrigado…beijinhos…

(…)
…vou-me deitar e o Luffy  continua às voltas pela casa…
…dez minutos depois, sinto o quase inaudível patinhar dele na entrada do quarto…
…solta um “renhau” anunciando a sua presença e salta aterrando no édredon branco…
…devagarinho, sobe até junto da meu lado esquerdo, olha-me com os olhos pequeninos e começa a fazer a sua limpeza de pêlo…
…desligo a tv depois de ver a previsão meteorológica e pouso a cabeça nas almofadas para dormir…
…pouco depois, sinto a cabecita dele roçar no meu cabelo, enrosca-se junto do meu pescoço e adormeço com um ronronar nos meus ouvidos…

(…)

…6ª feira…
…sete e meia da manhã…
…levanto-me e o meu companheiro de sono espreguiça-se languidamente…
- és um bicho de cheio de sorte… eu vou bulir e tu vás passar o dia de papo pró ar…
…no quarto de banho, começo a desfazer a barba, com ele sentado placidamente no bidé, como se fosse um Buda felpudo, seguindo com o olhar a estranha (para ele) operação…
…já no duche, a curiosidade do bicho pelo som da água, fá-lo espreitar pelo canto da cortina, esticando-se em cima do tampo da sanita…
…salpico-lhe o focinho e desaparece, saltando para o chão…
…quando afasto a cortina e agarro na toalha para me secar, dou com ele abancado na minha frente, perfeitamente enquadrado no centro de um dos mosaicos do chão e olhando fixamente para mim, seguindo com inclinações de cabeça cada movimento meu…
…porreiro, só me faltava um gato voyeur…
…pronto para ir trabalhar, tomo o pequeno almoço, deixo-lhe preparada a comida, a água e a caixa higiénica e deixo-lhe todas as divisões da casa franqueadas para que possa continuar a conhecer a casa, com excepção do meu escritório, que não preciso que ele o transforme mais num caos que já está…
…está a beber água na cozinha quando saio porta fora e parece não dar por isso…

(…)
…regresso a casa pouca passa das dezanove horas…
…pouso, em cima da mesa da cozinha,  as sacolas com as compras do supermercado e o pão para o fim de semana alargado…
…enquanto arrumo as coisas, o gajo aproxima-se vindo do escuro do  quarto, estaca no corredor e estica todo o corpo com um bocejo enorme…
…pisca os olhos ainda ensonado, habituando-se à luz intensa das lâmpadas fluorescentes…
- vida boa, hein…?
…em resposta, enrola-se nas minhas pernas e olha para o interior do frigorifico onde guardo os produtos frescos…
- e então…? como foi o dia…? portaste-te bem, gato…?
…dou uma volta pelo apartamento e parece que sim, exclusão feita ao rolo de papel higiénico que me esqueci de retirar da casa-de-banho da entrada e que, obviamente, agora está espalhado por tudo quanto é sítio do WC e quase todo desfeito pelas unhas e dentes do gajo…
- toma, podes ficar com o rolo também… - lançando-o na sua direcção, enquanto recolho os estragos…
…e lá vai ele às pantufadas ao pedaço de cartão…

 (…)
…janto como habitualmente na sala, desta vez com o Luffy, sentado no braço esquerdo do sofá, ora olhando para mim, ora para a comida…
…nada parece chamar-lhe especial atenção, até que cheira o fiambre dentro de um pão em cima da bandeja rectangular, apoiada nas minhas coxas… estica mais o focinho e uma das patas na direcção da iguaria rosada… puxo-o para trás e retiro um pedaço que lhe coloco bem na frente do nariz… duas snifadelas cautelosas, duas lambidelas e abocanha-o com satisfação…
- melhor que a ração castanha, né…? – e ele passa a língua pelos bigodes…
…dou-lhe mais um bocado que aceita sem reservas…
- e mais nada agora que não tás habituado a estas coisas…
…enquanto tomo o café e pouso a caneca na mesa de centro chinesa, salta delicadamente e aproxima-se para sentir o odor delicioso e quente que dela emana…
…depois volta para junto de mim no sofá e começa com um jogo de patas, desafiando-me para a brincadeira… 
- deixa-me cá ver com o que é que podes divertir-te… - olho em volta…
…na estante por trás de mim, vislumbro um par de esferas de meditação zen, verde-escuras e brancas, que trouxe de Macau e que fazem um tilintar suave quando se rolam na palma da mão…  
 …coloco ambas no soalho de madeira e giro-as, atraindo a sua atenção… dois minutos depois, já percorre toda a sala e depois o resto da casa, perseguindo os novos “brinquedos”…
…a diversão dura quase uma hora até que se farta e, com uma descontracção tremenda, se deita em cima do teclado do meu pc portátil, pouco ligando ao facto de eu estar a usá-lo…
- que grande lata, meu… - exclamo e ele simplesmente boceja…
…são quase duas da manhã…
- vamos dormir…? – retiro-o de cima do computador e vou desligando tudo…
…quando chego ao quarto, já está em cima da cama e enroscado sobre si próprio…
- boa noite, bichano… - e adormeço afagando-lhe a cabeça e embalado pelo seu ronronar…

(…)
…Sábado…

…dormi até acordar… não há despertador…e, no entanto, até é cedo… dez e pouco da manhã…
…levanto a tela da janela da varanda do quarto e deixo entrar o resto da claridade que o sol já espalhava no soalho…
- bom dia, Luffy… - respondendo ele com um sonoro espreguiçar e a boca escancarada…
…tomo um duche rápido enquanto ele rebola nos lençóis, ainda meio a dormir…
…enquanto tomo o um pequeno-almoço, ele toma o dele… depois saio para despejar o lixo no piso das garagens, com o bicho a fazer-me tropeçar na porta…
- queres ir comigo….? anda lá então…
…com alguma surpresa, assim que o elevador chega ao meu piso e assim que entro nele o Luffy entra também sem que o chame sequer…
…na descida olha em volta, cheira o chão e “descobre-se” no espelho lateral do ascensor, fitando a sua imagem reflectida com atenção…
- vaidoso…
…pego-lhe ao colo, despejo os sacos do lixo nos respectivos contentores segundo as normas da reciclagem e regressamos a casa… na saída do meu piso, encontramos a Maria Helena, a minha vizinha do lado, uma simpática sexagenária com um farto cabelo branco…
…saio primeiro do elevador e tenho que o chamar, porque continua a admirar-se no espelho…
- olá, Maria Helena – cumprimento-a quando ela se prepara para entrar em casa…
- olá, está tudo bem ?
- sim… olhe aqui esta coisa linda… - digo-lhe enquanto apanho o gato do chão e o estendo na sua direcção…
- oh, que coisa linda… - aproxima-se e afaga-lhe o pêlo doirado – é tão parecido com a raça do meu, mas tem o narizinho diferente…
…de facto, assim é, o Gucci é um Persa de pêlo comprido, cinzento claro e o focinho destes felinos é meio achatado… francamente, acho o Luffy bem mais bonito…
- veio passar o fim-de-ano comigo – resumo-lhe brevemente a estória da estadia dele comigo
- é muito bonito mesmo, mas é novinho ainda, não…?
- três meses…
- pois é…. bom ano novo então para vocês… tenho que ir tratar do almoço que vêm aí as minhas netas daqui a bocadinho…
- obrigado e bom ano igualmente para si e para os seus….
…depois da conversa com a minha vizinha, lembro-me de verificar na dispensa que não tenho frutos secos e que apeteciam alguns… umas nozes, umas amêndoas, uns cajus…
…ele mia sentado ao meu lado, cabeça espetada para dentro do armário…
- e tu também te apetecia algo especial, né….?
…decido ir ao supermercado, mas não me apetecia deixa-lo de novo sozinho, até porque já foi buscar uma das bolas chinesas que lhe arranjei e está a correr com ela de um lado ao outro pelos mosaicos claros da cozinha, desafiando-me para a brincadeira…
- queres ir comigo às compras, pá…? – interrogando-me como ele irá reagir à viagem…
…deslocar-me até ao supermercado mais próximo, implica que caminhe poucas centenas de metros até à paragem de autocarro e depois percorrer o trajecto de três paragens curtas até lá chegar…
…vou experimentar levá-lo aconchegado dentro do meu casaco preto, que me parece suficiente para transportá-lo de maneira confortável e protegido…
…saio de casa já com ele encostado ao meu abdómen, aninhado do meu lado esquerdo, apoiado na minha mão que, dentro do bolso exterior do casaco, sustenta o seu (leve) peso…
…na rua, o Luffy admira cada pormenor à sua volta, novidades na sua vivência ainda breve e observados de uma perspectiva de vista, no mínimo, diferente…
…sendo um gato “de casa” (e se já estar numa varanda ao ar livre já tinha muito diferente de tudo o que estava habituado), esta incursão, ainda que transportado, estava a ser uma verdadeira aventura para ele…
…apesar de o ar estar fresco, o céu está límpido, com uns farrapinhos de nuvens, e o sol está com uma temperatura acolhedora…
…caminho devagar para que o bichano aprecie melhor a viagem … cabeça de fora e orelhas espetadas, com olhos bem abertos observa tudo com máximo interesse…  
…enquanto esperamos pelo autocarro, observa com redobrado interesse e algum temor (embora sossegado)  os automóveis que passam na rua, a escassos metros de nós… deve estar admirado por vê-los assim tão “grandes” e “barulhentos”, quando comparados a serem vistos da “sua” varanda…
…o trajecto dentro do autocarro é feito sem sobressaltos… alguma curiosidade dos poucos passageiros num sábado matinal e muita curiosidade do Luffy a olhar lá para fora, vendo passar a paisagem a alguma velocidade diante de si…
…poucos minutos depois estamos na entrada do pequeno supermercado… numa das portas envidraçadas está um autocolante com o característico sinal indicador de proibição de acesso de cães ao espaço comercial…
- bem… tu não és um cão, não é…? – afago-lhe a cabeça entre as orelhas – …e vais ajudar-me a entrar lá dentro, com essa pinta de boneco de peluche…
…as portas automáticas deslizam lateralmente e entro, dirigindo-me para junto de uma das caixas no lado esquerdo e o Luffy está quase todo “enterrado” no casaco…
…chamo uma das operadoras de caixa próxima, que está desocupada de momento…
- bom dia, vocês têm comida para gatos…?
- sim, aqui logo neste corredor… - indica
- e será que eu posso ir lá buscar alguma coisa aqui para o pequenino, num instante…? – e o Luffy, como se tivesse sido chamado para entrar em cena, levanta o focinho e mostra um olhar inquisitivo…
…a empregada franze a testa…
- ah, mas isso é que já não pode ser… não viu o sinal lá fora…?
- vi, mas ele é um gato, não é um cão – tento desanuviar a conversa…
…ela parece não ter achado piada e continua com uma expressão cerrada, mesmo com o bicharoco a fazer-lhe olhos doces..
…volta-se para trás e chama alguém, provavelmente uma superiora sua…
…chega uma rapariga na casa dos trinta, loirinha de cabelo curto e corpo roliço, que ainda antes de chegar junto de nós, vislumbra a minha figura de pé, vestido de preto, onde se distingue, em contraste, uma mancha felpuda e amarela, com dois pontinhos castanho-claros a olharem para ela…
- …ooooohhhh, que coisa mais fooofaaaa…!!! – diz agora com a cara quase junto do focinho do gato…
…a outra diz-lhe ao ouvido qualquer coisa e ela olha para mim e para o bichano…
- venha comigo… - diz-me com um sorriso e a “antipática” fica de trombas, com um olhar carrancudo, enquanto passamos por ela…
…imediatamente depois de entrarmos, aponta-me um corredor fronteiro a dois metros da caixa onde estávamos…
- a comida para gatos está logo ali… - agradeço-lhe, desejo-lhe um bom ano e ela retribuí, perguntando-me o nome do gato, enquanto que lhe coça o queixo com o indicador direito…
- feliz ano novo, Luffy… - e despede-se de mim igualmente…
 …em breves minutos, vou buscar um pequeno cesto de plástico e escolho umas iguarias para o gatito que, pela primeira vez e porque tive que me agachar, sente algum desconforto na sua posição e esboça um movimento de querer sair do meu colo…
- espera um bocadinho, meu… já vamos embora… preferes salmão ou frango…?
…com comida enlatada de carne e peixe e dois sacos pequenos de ração de vários sabores, regresso para a mesma caixa (a única em funcionamento), com a mesma operadora, que regista as compras de um casal que parece que vais levar metade do stock do supermercado…
… enquanto me coloco na fila, estico a mão para a prateleira ali perto e agarro nas embalagens de frutos secos que vim comprar e igualmente uns pacotes de pastinhas elásticas…
…o Luffy está sossegadinho agora, intrigado com o som agudo que lhe chega aos ouvidos, originado pelo registar continuo das teclas da máquina registadora electrónica à nossa frente e pela passagem continua dos produtos pelo balcão, sendo identificados sonoramente pelos seus códigos de barras…
…uma “tia” atrás de nós, pergunta com conhecimento de causa …
- é um “Bosque da Noruega”, não é…?
…confirmo e antes que ela pergunte digo-lhe quanto meses tem e o nome…
- que engraçado… - solta em tom nasalado…
…com a mão direita descarrego as minhas compras no tapete da caixa de saída, enquanto a senhora do casal que estava na minha frente, atafulha os seus sacos e cumprimenta o gato, que neste momento já parece a principal atracção do sítio…
- que gatinho tão bonito… - diz deliciada…
…a “antipática” regista tudo o que trago, pago-lhe a quantia devida, recebo o troco e o talão e ela tenta colar-se aos elogios em volta…
- és mesmo um gato bonito – sibilou olhando para ele e para mim…
…quer o Luffy, quer eu ignorámos o elogio olimpicamente, não sem desejar-lhe um bom ano…
 …no regresso calmo e já num jardim perto de casa, pergunto-me se ele gostará de andar um pouco por ali… olho em volta, verificando se anda algum cão a passear por ali, pouso o saco num banco próximo e solto o bicharoco no chão…
… cheira o chão, olha em volta e desembaraçadamente vai avançando pela relva e pelas lajes do passeio… salta para um muro de menos de meio metro que ladeia um pequeno canavial, onde acaba por se enfiar, saindo uns segundos depois com uns miados de satisfação…
- vamos, gato, anda lá… - sorrio para ele, andando junto ao muro, com ele trotando de cauda no ar ao meu lado… ficamos por ali por uns minutos… depois decido que é melhor recolher a casa, até porque o sol de inverno ainda não subiu alto o suficiente para iluminar aquele recanto entre duas correntezas de prédios e a leve brisa que agora sopra, torna a sombra fria…

(…)
…à noite, o Luffy está acelerado, porque dormiu quase toda a tarde (também fruto das novas emoções matinais), ora na parapeito interior da janela da sala ou na varanda, estendido ao sol vespertino, ora no sofá…
…anda em correia desenfreada por todas as divisões, “pedindo-me” para brincar às escondidas, no que acabo por alinhar… o jogo consiste em esconder-me num qualquer recanto da  casa até que ele me descubra e depois saia disparado, patinando no soalho, até esconder-se ele até que o descubra… e por aí fora, até se fartar… o que raramente acontece…
- não tens fome…? – pergunto-lhe depois de o apanhar à saída do escritório e verificando que já passa das dez da noite e ainda não jantei… - vamos papar, gato…
…verdade seja dita que pelo que é dado observar, este “gajo” não é dado a horas certas para comer, nem a grandes alambazanços de comida… come quando tem fome e geralmente pouco… mas desta vez após tratar do meu jantar tardio, abri uma lata de paté de atum para ele degustar…
…e lá comer, até comeu… mas não muito, para alguma desilusão minha… bebeu depois uma bocadito de agua e voltou para a sua raçãozita castanha…. enfim, gostos não se discutem…

(…)
…perto das onze da noite, enroscado a dormir ao meu lado no sofá, acordou com o trinado três mensagens a cair no meu telemóvel… a primeira de uma “amiga colorida” para saber onde ia passar o fim de ano… respondi que seria em casa, sossegado e acompanhado, e enviei-lhe uma foto do bicho com votos de feliz 2013… a segunda da minha amiga Eva, perguntando-me exactamente a mesma questão, mas com intenção diferente; dou-lhe a mesma resposta e uma beijoca sincera de bom ano novo…. a terceira é da “mamã” do “bébé”, para saber como estávamos… digitei-lhe uma resposta assegurando que estava tudo bem e enviei-lhe igualmente uma foto do Luffy a gozar o quentinho do sol, no parapeito da janela da sala…
…olho para o lado e lá está ele de novo numa das posições acrobáticas que costuma assumir  para “passar pelas brasas”, deitado de costas, barriga peluda para cima, cabeça para trás, patas dianteiras recolhidas como um louva-a-deus e patas traseiras estendidas…
(…)
…domingo…
…dia santo e papo o ar a dormir até depois do meio-dia, eu e o Luffy…
…antes, quando o dia começou a clarear, senti-o sair de cima da cama, ouvi-o esgravatar na cozinha a esconder a mijinha matinal, para depois me dar duas patadinhas na cabeça, anunciando o seu regresso… 
…almocei quase à hora do lanche e aproveitei o resto da tarde para arrumar papelada e ler um pouco… o Luffy passou o tempo a aproveitar o sol na varanda, ora a dormitar, ora a ver o movimento na rua, vindo de vez em quando ter comigo (ou eu ter com ele…) para umas festas no lombo…

(…)
…inicio da noite…
…fiquei a descobrir que o “gajo” gosta de chourição, doce de morango (é verdade…) e que o gás da Coca-Cola o faz fazer umas caretas muito giras, enquanto arreganha os bigodes e dá uns estalinhos com a língua… 
…estamos refastelados no sofá a ver o Benfica e descobri mais um adepto do Glorioso, a julgar pela satisfação com que enverga o meu cachecol  e esteve atento ao jogo… quer dizer, atento enquanto não esteve distraído com coisas mais interessantes para um gato fazer do que ver televisão… mas ele gosta de qualquer imagem com bastante movimento e som e até esteve bastante atento, por exemplo, a um vídeo da Shakira que, horas atrás, estava a correr no meu pc portátil… bom gosto tem o bichano…
…o resto da noite passa devagar, com as loucuras nocturnas do Luffy, correndo pela casa e fazendo deslizar as esferas metálicas pelo chão da casa e depois comigo no nosso jogo de esconde-esconde… já de madrugada, enquanto estou a acabar de ver um filme na tv, ele recolhe à cama mais cedo, cansado de tantas tropelias…
…quando me vou deitar, ele abre os olhos ensonados, mas continua deitado enquanto distende o corpo, esticando as patas e bocejando longamente…
- até amanhã, gato…
…e adormeço uma vez mais com o ronronar dele a embalar-me…

(…)
…2ª feira…

…acordo com um toque de um sms a cair no telemóvel… são nove e meia, diz-me o relógio digital na mesa de cabeceira…é tolerância de ponto hoje, decretada e embrulhada como um rebuçado pelos filhos da puta que continuam a desgraçar a minha vida e a de outros mais… ainda estou com sono e rebolo em cima das almofadas até cair num torpor tranquilo… o gato resmunga baixinho porque devo tê-lo empurrado sem querer quando estava a ver as horas, mas entretanto encosta-se a mim e adormece também…. 
(…)

…desperto uma hora depois e acendo a tv do quarto para ver o que se passa no mundo…passado quinze minutos num canal noticioso, vejo que continua tudo na mesma e que pelo previsto a passagem de ano vai ser brindada com chuva e “acentuado arrefecimento noctuno”…
…o Luffy já se levantou e anda particularmente activo… não o vejo mas ouço-o a passear pela casa… vou até ao quarto de banho e verifico que acabou o rolo de papel higiénico e vou até à dispensa buscar outro… ao ver-me o bichano saúda-me com um “renhau-renhau” estridente…
- bom dia pra ti também, Luffy… - abro um armário de onde retiro uma embalagem de plástico com três rolos que restam… os olhos dele até brilham quando os vê…
- nem penses, gato – digo-lhe enquanto volto para o WC da suite – estes não vais desfazê-los…
…no entanto, ele segue-me, com o olhar fixo enquanto os guardo fechados no armário por baixo do lavatório…
- toma – entrego-lhe o que resta da embalagem de plástico, largando-a perto dele no chão do quarto – podes ficar com isto…
…ele olha perplexo para o pedaço de plástico…
- agora, se me dás licença, tenho que tratar de um assunto – pisco-lhe o olho e fecho a porta da casa de banho…
…quando saio, mais “leve” e com um duche já tomado, já ele anda a percorrer o apartamento enfiado dentro do que resta da embalagem de plástico… ou seja, qualquer coisa é uma diversão para ele…
…aproveito e verifico o sms no telemóvel enquanto tomo uma caneca a escaldar de café preto…
…é da “minha eterna metade inatingível” a desejar-me um feliz ano novo, na forma de um poema de uma canção… dantes, receber uma mensagem dela era simplesmente uma alegria sem tamanho, como qualquer coisa a que ele dissesse respeito… agora é um misto desse mesmo sentir mas também de dor, de tristeza, de desilusão e de tantos outros sentimentos que nem sei bem classificar ou então nem quero ainda fazê-lo… devolvo-lhe os votos de feliz ano novo, talvez com mais palavras do que aquelas que deveria, mas como dela nunca escondi nenhum tipo de sentimento que fosse, a mensagem lá seguiu assim mesmo…
…o bichano interrompe-me a divagação saltando-me para o colo à procura de atenção…
…abençoado gato que sem dar por isso (…e agora me apercebo disso…) me tem feito olvidar um pouco certos pensamentos que tanto me assaltam a mente e enegrecem o pensamento, a alma e o coração… afago-lhe o pêlo lustroso e ele volta-se de barriga para cima para lhe fazer cócegas, enquanto esperneia com as quatro patas e vai alternando entre morder-me os dedos com os dentes afiados  e lamber-me as costas da mão com a língua áspera…

- Luffy, Luffy, gato doido… - e ele olha-me com os olhitos castanho-claros, dando mais uma lambidela e uma patadinha de unhas recolhidas, saltando para o chão a esconder-se de mim às voltas nos bancos e na mesa da cozinha… definitivamente, hoje acordou com a corda toda….

(…)
…depois de um período da manhã em cabriolas e muita vivacidade, a meio da tarde o bicharoco está meio tristonho…  no alçado da varanda da sala, olha para fora pelo vidro da uma das portas, fechada, e vê a chuva que começou a cair e que me obrigou a levantar tudo o que preparei para a sua segurança no acesso ao exterior…  ou seja, enquanto ela continuar a cair, teria que ficar dentro de casa, o que para ele era uma chatice porque já se habituara rapidamente àquele espaço…
…passou grande parte do resto do dia a dormitar aqui e ali, tendo eu aproveitado para caprichar no jantar, elaborando um delicioso esparguete al dente, com gambas, ovo mexido, queijo Brie e bacon… enquanto falava com os meus pais no telemóvel desejando-lhes um bom ano…
…episodicamente, jantei sentado à mesa, deliciado com o manjar confeccionado e acompanhado de um duriense Evel tinto, reserva de 2008, e com o Luffy sentado no banco ao meu lado, admirado com tudo aquilo…
…apesar de lhe oferecer um bocado da minha comida, não se mostrou muito interessado… assim sendo, decidi oferecer-lhe uma dose reforçada de fiambre e dois bocados de chourição que, obviamente, não recusou…
…acabei de lavar a loiça, aqueci uma caneca de café e foi ter com o Luffy, abancado junto da janela da cozinha a olhar para os faróis dos carros que passavam na rua e para as gotas de chuva que batiam na mármore exterior…
…continua com saudades do ar livre, assim parecia… aproximei-me dele, cocei-lhe o queixo e levantou a cauda contente, soltando um miado curto… abri um dos lados da janela, deixando entrar o ar húmido daquela noite e fiquei à espera da reacção dele… hesitante, aproximou-se da janela e tacteou com as patas o estreito parapeito exterior molhado, sacudindo-as após sentir a água debaixo das almofadas…
- tá frio, né, gato…? – sorrio para ele…
…as bandas horizontais de metal branco, colocadas em todos os andares em intervalos regulares na parte de fora da janela, para quebrar a entrada da luz solar, fornecem um protecção extra para ele, mas continuo sempre junto dele para prevenir qualquer queda acidental…  durante alguns segundos, alterna o olhar entre mim e para as luzes lá fora… e depois encosta a cabecita dele na minha face, com um ronronar sonoro…
…se isto foi um agradecimento de alguma forma ou de alguma coisa, fez-me engolir em seco para não me emocionar mais…

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…dez da noite…
…a chuva abrandou lá fora, quase parando… como estou a fumar na sala, optei por abrir as duas janelas da varanda para o fumo sair e para o Luffy ficar mais perto da varanda que tanto gosta… como o piso está molhado e ele não gosta nada disso, fica sentando na madeira do exterior de madeira, sempre comigo a vigiá-lo pelo canto do olho, por via das dúvidas…
…agora está a soprar um bocadinho de vento que lhe faz levantar a pelagem doirada… e faz igualmente com que receba em cheio no focinho umas pingas soltas da água que teima cair dos céus… não agradado com isso, regressa ao interior de casa, subindo para uma cadeira da sala, iniciando uma fastidiosa operação de higiene pessoal, lambendo tudo quanto é pedaço do seu pequeno corpo…
…coloco um cd de chill out na hi-fi e fecho uma das janelas da sacada, quando começam a ouvir-se lá fora os primeiros petardos anunciando a entrada do novo ano, que provocam um olhar inquisitivo no Luffy…
…acabada a sua tarefa higiénica, recolhe-se junto de mim, ambos deitados ao longo do sofá, a olhar para a tv sintonizada, sem som,  na BBC World News a ver imagens das festividades da entrada no ano novo nas diversas latitudes do mundo…
…enrolado como um novelo em cima do meu tórax, o bichano dá um solavanco e levanta a cabeça com as orelhas em pé,  quando ouve o spray do ambientador que, colocado no topo do móvel atrás de nós, em intervalos certos vai soltando uma fragância fresca para o ar… é engraçado a razão (que desconheço) porque ainda continua a assustar-se com aquele “borrifar”, apesar de ele disparar quotidianamente de hora a hora e já o ter sentido várias vezes nestes dias…

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Meia-noite …o som dos foguetes e do povo a bater tampas de panelas nas janelas, a buzinar na rua com as malditas vuvuzelas ainda existentes e a carregar nos claxons dos automóveis, invade o sossego da casa, acordando os dois… o bichano está mais espantado porque, afinal de contas, é a sua primeira passagem de ano…
… deixo a janela durante um bocado mais tempo aberta (apesar do frio que se acentuou), para que 2013 entre igualmente em minha casa, apesar de achar que não vai ser uma visita bem vinda, enquanto andar por cá nos próximos 365 dias…
…levanto-me, segurando o meu companheiro de “sesta nocturna” numa das mãos  e coloco-o na parapeito de faia da janela da sala, para vislumbrar o fogo-de-artifício que, ao longe, iluminava o céu lançado a sul, para os lados do rio… deito o resto do Evel numa flute e, debruçado contra vidro da janela, junto-te a ele a ver o fogo no céu…

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…3ª feira, primeiro dia do ano…
…acordo ao meio-dia e meio em ponto… o bicharoco felpudo optou por passar a sua primeira noite de “réveillon” fora e dormiu no sofá da sala… é aí que o vou encontrar, ainda carregado de preguiça, quando me levanto…
- então…? andaste na borga…? – olhando-o cá de cima, com ele a bocejar continuamente e esticar o corpo, em pé, em cima da mesa chinesa…
…um longo “rrrrrrrrrr” saiu das suas entranhas, como se assentisse na minha questão e depois segue-me até à cozinha…
…enquanto, agachado junto da sua caixa higiénica, recolho os dejectos por ele depositados durante a noite, estendido em cima da bancada de pedra sobranceira, vai me dando patadas no alto da cabeça e depois esconde-se para que não o veja…
- atina-te lá, pá… - brinco igualmente com ele, dando-lhe também “patadinhas” com o meu indicador direito, no meio do seu focinho…

(…)
… no principio da tarde, o sol que já tinha afugentado a chuva assim que raiou, secou quase por completo o terraço da varanda da sala e assim, mais uma vez, disponho todo o dispositivo para que o Luffy tenha acesso seguro a um dos seus lugares preferidos aqui…
…enquanto o faço, deixo-o fora da sala, no entanto com ele a observar-me atentamente e esticando o pescoço para perscrutar cada movimento meu, através da vidraça da porta que o deixou expectante no hall de entrada…
…com tudo pronto, abro-lhe solenemente a porta, franqueando a sua entrada na sala, que atravessa em trote apressado, na direcção da luz quente que o astro-rei derrama no terraço da varanda…
…verifica todos os centímetros daquele espaço que lhe é querido e, com dois miados curtos de pura satisfação, esparrama-se ao comprido, patas esticadas, corpo distendido e olhos cerrados, a sentir o calor tépido do sol e a aragem suave a percorrer-lhe a pelagem amarela-alaranjada… é lindo ver tanta satisfação com tão pouco… tomara eu que as coisas fossem assim tão simples na minha vida…

(…)
…o tempo passa lânguido o resto do dia… amanhã vou trabalhar, mesmo sem vontade alguma, mas lá terá que ser… recolho cedo ao vale dos lençóis, ainda pouco passa das onze da noite, com o Luffy encostado ao meu pescoço, com o mesmo ronronar ritmado que me ajuda a dormir sossegado … 

(…)

…4ª feira…
…18 horas…
…abro a porta do apartamento e, ainda na penumbra, reparo que tenho um “bibelôt” de pelagem cor de oiro, sentado na magnificência do seu palmo e meio,  quadros traseiros assentes na mesinha do hall de entrada…
- renhaaauuu….
- boa tarde para ti também, bacano… - acendo a luz e coço-lhe o topo da cabeça entre as orelhas… - correu-te bem o dia…?
…e ele lá vai respondendo na linguagem dele, entre miados curtos e enroscadelas nas minhas pernas, enquanto me preparo para tomar um duche retemperador de mais um dia…
…já de jogging vestido, vou com ele aos saltos na frente até à cozinha e verifico as suas coisas… vejo que comeu, bebeu água, virou a caixa de transporte dele do avesso (nas brincadeiras dele, está visto…) e também verifico que os seus intestinos continuam a funcionar na perfeição…
- dá-me dois minutinhos que vou por o lixo lá abaixo… - mas ele não está nesse cumprimento de onda e saí porta fora comigo…
- tá bem, pronto… vem lá, então – chama-o já dentro do elevador…
…no regresso, cruzo-me com uma vizinha minha do 4º andar, que entra no ascensor no piso de entrada… ela com o pimpolho dela, talvez com uns três anos ao colo, eu com o Luffy apoiado e enroscado em concha no meu braço esquerdo… cada um deles a mesma curiosidade um pelo outro, parece que se esticam um para o outro…
- é um gatinho pequenino como tu, Martim… - explica a mãe, com o petiz de olhos claros a brilhar…
- é o Luffy… faz-lhe uma festinha se quiseres… - digo-lhe olhando para a progenitora…
…o miúdo olha para o gato e de novo para a mãe, que lhe agarra no bracito e estica para o focinho do bichano…
…hesitante, toca com o indicador rosado na ponta do nariz do Luffy, que arrebita as orelhas, cerra um pouco os olhos e solta um miado curto, fazendo-o recuar a mão com um sorriso de satisfação, enquanto olha a mãe satisfeito…
 - ele disse “boa noite, Martim…” – digo-lhe despedindo-me igualmente da minha vizinha, enquanto saem no piso deles, com o puto a acenar-nos adeus…

 (…)
…o telemóvel  toca na sala, enquanto estou agachado atrás de um dos lados da minha cama, no quarto iluminado apenas pelas luzes exteriores que entram pela vidraça da varada… estico o corpo comprido contra o chão e espreito pelo fundo do édredon, para tentar vislumbrar a silhueta clara do bicharoco... nada … continuo o jogo alternado de caça e caçador, rolando devagar, tentando avançar sem fazer o mínimo barulho… a ele não o ouço, nem o vejo, mas o telemóvel continua a tocar… acabo por me levantar para ir atender e sou eu que acabo caçado pelo Luffy à saída do quarto… vindo do escritório, dá-me uma patada nas pernas como quem diz “…apanhei-te…” e saí logo a correr no escuro, patinando no soalho para se esconder de novo em alguma parte da casa e reiniciar o jogo…
- ganhaste, ok, mas esta não vale porque ia atender o telemóvel… - que quando chego à sala já se encontra mudo…
…verifico as chamadas não atendidas e pressiono o último número da lista, enquanto acendo um cigarro e saio para a varanda da sala…
…menos de três minutos depois acabei a chamada e o Luffy deve ter ficado farto de estar à minha espera para continuar a brincadeira, encafuado nalgum esconderijo dele e veio ter comigo cá fora…
- era a tua “mamã”, gato… vem-te buscar amanhã ao meio-dia… - digo-lhe, com ele a afiar as unhas nos meus jeans, de corpo esticado ao alto…
...pego-o ao colo, enquanto acabo de fumar o cigarro, e desta nova perspectiva de visão, ele olha em volta de pescoço esticado, sentindo ambos uma brisa fria que sopra de norte…

(…)

…5ª feira…
…esqueci-me de desligar o despertador do telemóvel, programado  para a hora habitual nos dias de semana, e hoje que tenho este dia de férias acordei com a estridência habitual das 7 e tal da manhã… estico o braço esquerdo do fundo do amontoado quente dos lençóis e certifico-me de desligar de vez o alarme…
…aninho-me de novo, puxando o édredon branco para cima, quase tapando a cabeça, onde “alguém” que  foi acordado como eu mas que também não parece estar com vontade de se levantar, me massaja os cabelos com duas patas felpudas…
- dorme, meu, dorme… é muito cedo ainda…

(…)

…passadas duas horas, já estamos em pé e tomamos o pequeno-almoço ao mesmo tempo… depois começo a preparar a “bagagem” do bichano, que está particularmente activo esta manhã, em correria constante por toda a casa, com as bolas metálicas velozmente a deslizar pela madeira e pela cerâmica do chão ou em saltos e piruetas na cama, nos sofás, nas cadeiras e nas janelas…
…quando termino o que estava a fazer, vou até à varanda da sala, com o Luffy a trotar de cauda no ar ao meu lado, para aproveitar-mos o sol ameno que entretanto, agora que termina a manhã, começa ali a espalhar um cálido derrame…  
…a contrastar com toda a alegria e brincadeira durante aquela manhã, o bichano deixa a varanda devagarinho e salta lânguido para a sacada interior de madeira da janela da sala, escondido da minha vista pelo cortinado azul…
…vou ter junto dele, encontrando-o deitado sobre a madeira aquecida do sol de inverno, com as patinhas recolhidas sobre o corpo de bébé de meses, olhando-me com aqueles olhitos, tipo Puss in Boots, fixos em mim, quando me debruço e colo a minha cara perto e ao nível dele…
- então, bichano, tás triste…?
…olha-me mais atento durante uns longos segundos, retira uma das patas dianteiras debaixo do pêlo e dá-me três patadinhas de unhas recolhidas na cara de forma compassada o que me faz sorrir e devolver o cumprimento, coçando-lhe o topo da cabeça no meio das orelhas como tanto gosta…  sentindo as festas e ronronando , retira a outra pata debaixo do corpo e sentado, começa por esfregar o focinho na minha cara, para depois lamber-me abundantemente o rosto, com a sua língua pequenita e áspera, secando o par de lágrimas que deslizavam grossas…   

(…)
…passou já praticamente  semana e meia desde que o Luffy regressou a “casa” dele… e deixou esta casa estranhamente calma e triste, no sentido inverso em que ele a “encheu” durante escassos dias… pelo que me disseram, os primeiros dias dele, depois de estar por aqui, também foram meio letárgicos e sorumbáticos… se bem que também sei que agora já está de novo com aquela alegria, meiguice e energia contagiante que talvez, um dia, trará de novo à toca deste lobo solitário…


JP ®